Por Mauro Pinho e Miguel Pedroso

Atuando na manipulação de frágeis tecidos, o ato cirúrgico representa uma das mais perfeitas formas de intersecção entre a ciência e a arte. Apesar de basear-se em um grande volume de pesquisas e estudos, o sucesso de uma operação irá sempre depender, em última análise, da habilidade do cirurgião em executar precisos gestos manuais que incluem dissecções, incisões e suturas.

A partir dos procedimentos pioneiros há séculos atrás, tornou-se óbvia a necessidade de consolidar as novas técnicas operatórias através de registros que permitissem sua reprodução por outros cirurgiões. Devido á inexistência de recursos fotográficos à época, a solução encontrada baseou-se na elaboração de laboriosos desenhos nos quais demonstrava-se a sequência de procedimentos sobre os diferentes elementos anatômicos. Desta forma, surgiram os “atlas” cirúrgicos, guias essenciais para a formação dos cirurgiões até os dias de hoje, sejam estes versando desde simples exéreses ungueais até complexas ressecções hepáticas ou pulmonares. Com o advento posterior da fotografia, filmes e vídeos, estas demonstrações tornaram-se cada vez mais precisas e essenciais ao aprendizado cirúrgico.

A introdução da videolaparoscopia representou uma grande revolução, reduzindo o trauma cirúrgico e suas consequências. Entretanto, cabe-nos aqui analisar a grande transformação ocorrida no que diz respeito aos aspectos meramente técnicos do ato cirúrgico. A segurança do contato direto das mãos sobre os tecidos foi substituída pelas extremidades de pinças delgadas e longas tocando vísceras e vasos sanguíneos no interior de cavidades abdominais e torácicas fechadas. A abrangente visão de todas as ações cirúrgicas através de grandes incisões deu lugar a um campo ótico restrito ao trabalho do cirurgião, ocultando frequentemente as manobras de tração ou contenção executadas por seus auxiliares. A própria responsabilidade de visualizar os tecidos trabalhados foi inteiramente transferida para o auxiliar, levando a uma estranha e delicada parceria de mãos orientadas por olhos alheios.

E, desta forma, os cirurgiões perceberam que a simples observação de operações em imagens gravadas revelavam-se insuficientes para uma pronta reprodução do ato cirúrgico.

Agora, não mais basta um demonstrativo sobre o que fazer. Necessitamos agora mais informações, para compreendermos como fazer!

É necessária a percepção integrada de dois ambientes distintos, intra e extracavitários. Como posicionar a equipe em cada momento? Como melhor mobilizar a mesa cirúrgica para uma parceria ideal com a lei da gravidade, nossa auxiliar de grande valia? Como posicionar os diversos trocateres e como obter através deles ações otimizadas com nossos instrumentos?

Agora, não mais basta um demonstrativo sobre o que fazer. Necessitamos agora mais informações, para compreendermos como fazer!

E mais. Qual a melhor manobra ou triangulação para cada etapa ou ação? Como nos familiarizar com as imagens de uma nova anatomia, observada por ângulos até então inacessíveis, partindo de pontos de vista intracavitários ou retroperitoniais?

Foi exatamente visando atender a estas demandas que o Instituto Lubeck lançou em 2007 os seus primeiros VideoAtlas, inicialmente para a realização de colectomias direitas e retossigmoidectomias. Para isto, foi realizado um grande esforço no sentido de apresentar uma padronização rigorosa de sequência de etapas e respectivas apresentações expositivas, na forma de triangulações fácilmente memorizaveis e reprodutíveis. Nomenclatura de portais, identificação de pinças, direções de movimentos e trações, demonstração de planos de dissecção, e apresentação de referências anatômicas foram adicionadas a cada etapa, visando facilitar o aprendizado através de um processo descentralizado, ordenado e seguro.

Para nossa grande satisfação, tal iniciativa recebeu um excepcional apoio por parte dos colegas cirurgiões, contribuindo ao conjunto de esforços já então coletivamente realizados através de cursos, congressos e preceptorias para a expansão da cirurgia colorretal videolaparoscópica em nosso País, possibilitando o estabelecimento de uma verdadeira escola brasileira que muito nos orgulha.

Visando facilitar o acesso aos colegas destes VideoAtlas, promovemos uma gradual atualização de mídias desde os primeiros CD-ROMs, DVDs, website, iBook e mais recentemente lançando um aplicativo contendo todos os videoatlas, disponíveis para downloads gratuitos.

O sucesso da metodologia do VideoAtlas no ensino da cirurgia colorretal videolaparoscópica nos levou a ser solicitados para aplica-la a outros procedimentos cirúrgicos a serem realizados por especialistas de expressão nacional e internacional. A boa aceitação entre os colegas pode ser atestada pelos mais de 16 000 downloads de iBooks e 2 000 edições em aplicativos.

Acreditamos que iniciativas como esta possam contribuir para consolidar a padronização de procedimentos, possibilitando uma referência segura para uma melhor curva de aprendizado, em especial quando associadas a outras ações de ensino e treinamento, como cursos e preceptorias em suas diferentes formas.

Agradecemos ao convite da SOBRACIL para esta participação, reafirmando o objetivo do Instituto Lubeck em contribuir para a expansão da cirurgia minimamente invasiva afim de que um maior número de pacientes possa ter acesso a seus importantes benefícios.